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Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

Da Viuvez

manel martins, 09.09.22

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Como a discrição era o seu forte , o meu marido faleceu sem aborrecer  ninguém . Não  foi necessário chamar o médico porque não houve doença: a meio do jantar suspendeu serenamente os talheres por cima dos filetes com arroz de grelos , olhou para mim com a  ternura do costume,  pegou-me na mão , e disse

----Alice

o que me surpreendeu um bocado  por não  me chamar Felicidade , sorriu-me , deixou de sorrir,

aterrou de queixo no cestinho do pão e chegou já cadáver aos papos secos da véspera dado que por ser dia de limpezas não tive tempo de ir às compras . Não houve despesas em doutores nem em medicamentos , os filetes voltaram ao congelador e quanto aos papos secos torrei-os , pus-lhes um bocadinho de compota de framboesa e comi-os com chá na noite do velório. Com a fraqueza com que eu estava , souberam-me lindamente.  

Não foi necessário chamar o médico, o agente funerário não suou muito a tirar o pijama do finado e a vestir-lhe o fato castanho visto o meu marido , que nunca foi um homem rígido , dobrar os braços e as pernas com uma submissão exemplar e às quatro da tarde já estava na câmara ardente B-2 da Igreja dos Anjos , engraxadinho e penteado , todo composto , com uma cruz  nos dedos , comigo e com a minha irmã  Alice em cadeiras de assento de veludo encarnado a pormos a conversa em dia que como isto anda , cheias de trabalho e de complicações , nem temos tempo para telefonar uma à  outra e só nos vemos quando o rei faz anos .Ela achou-me com boas cores , eu gabei-lhe o lenço de seda do pescoço , o meu marido a assistir calado 

(sempre assistiu calado quando nós falávamos como se não estivesse ali )

e pela primeira vez desde que o conheço não se pôs a espiar as pernas da Alice a pensar que eu não  o via nem tentou passar-lhe a mãozinha  na nádega quando me apanhou de costas a cumprimentar a viúva da câmara  B-3

cujo defunto só aceitou o caixão depois de meses e meses de despesas enormes numa clínica particular em soros , radiografias e algálias , uma dessas pessoas esbanjadoras incapazes de  entenderem que a vida está pela hora da morte e que não se ralam de deixar quem cá  fica a tinir   sem dinheiro para uma excursão  a Espanha , onde se diz que há uns rapazes generosos e novos   com o sentido da solidariedade humana , que consolam a gente por meia dúzia de pesetas em discotecas e outros lugares de culto que por acaso não se me dava conhecer.

 Tirando a minha irmã e eu não veio mais ninguém: não possuo cunhados nem primos , o meu marido nunca foi sociável e limitava-se a sair duas horas à  tarde , com um saco de milho no bolso , para um passeio solitário na Baixa e uma visita aos pombos do Camões , de modo que a minha irmã e eu   esgotada a conversa , ficámos caladas em frente  da urna até que me lembrei da agonia por cima dos filetes , informei a minha irmã 

------  Sabes que ele disse Alice ao aterrar nos papos secos ?

ela corou como uma ameixa agarrada ao lenço de seda do pescoço , um lenço de ramagens  óptimo que tomara eu um igual

----- Alice 

eu

-----Alice imagina vá-se lá saber porquê 

a minha irmã de pé com uma expressão esquisita 

---- Aguenta um minuto que  vou lá fora apanhar ar

e isto foi há três meses e nunca mais a vi ao natural mas dei com ela ontem , ao abrir por acaso a gaveta da secretaria  do meu marido à  procura da tesoura das unhas quando encontrei um envelope  de fotografias deles dois abraçados , e o meu marido de cartuxo de milho para os pombos na mão e a minha irmã de lenço de seda do pescoço , a sorrirem-se diante da estátua do Camões .Talvez fossem amigos . Eram de certeza só amigos e as cartas que acompanhavam as fotografias , uma delas a agradecer o lenço e a prometer Hei-de vestir-me só com ele quando vieres cá  a casa meu leão adorado e outra que acabava A tua Alice que te morde não significavam mais do que uma brincadeira de cunhados apesar das das pernas dela e da mãozinha na nádega . (A minha irmã é  uma  rapariga expansiva)

( aos vinte e seis anos toda a gente é  expansiva)

e sem maldade nenhuma e o meu marido um homem como deve ser .Talvez por isso eu vá sentir-me de certeza um bocadinho culpada quando no verão for a Espanha de autocarro numa excursão de senhoras sozinhas e entrar numa discoteca com um homem  simpático a pedir-me ao ouvido , entre repenicos de beijos ,

que lhe empreste pesetas para pagar a conta por , que maçada , ter esquecido a carteira em casa dos pais .

 

António Lobo Antunes

Minha memória

manel martins, 08.09.22

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Minha memória,

Amanhã vou ter quinze anos outra vez, vou acordar com o sol alto e nenhuma vontade de trabalhar. Esticar o meu corpo leve e despreocupado e sair a correr. O dia vai voar e eu com ele, por dentro das gargalhadas dos amigos que deixei lá longe numa curva qualquer da vida e que por causa deste amanhã, com quinze anos outra vez, voltarei a encontrar. Vou revê-los um a ou nos seus rostos imberbes, nas suas promessas por cumprir, nos seus sonhos tão reais como o foram nesse tempo. Vou revê-los e abraça-los nesse abraço longo dos quinze anos que é para sempre e, ter a absoluta certeza de que nunca os irei perder. De que nunca mais os irei perder. Com quinze anos todos os planos são para sempre e para já. O tempo cavalga numa sinfonia arrebatada. As horas sucedem-se, é certo, mas ninguém repara nelas. Não há sinais de abrandamento nem fios de cabelo que perdem a cor. Aos quinze anos a vida agita-se em passo de corrida, ninguém se lembra de olhar para trás e daquilo que se passou. Não interessa sequer, o que passou. Apenas importa o que há por viver. E o que há por viver, aos quinze anos, é quase sempre o tempo todo da eternidade. Da memória, tem-se apenas uma leve e ténue lembrança. Os sonhos são curtos e os sonos demorados e quase sempre despovoados de fantasmas. Amanhã, depois de acordar vou ficar por aí a nadar no mar quente dos meus anseios. Descobrir que o meu corpo afinal passa facilmente por cima do horizonte. As pernas leves, tão leves e os braços abertos no tamanho de quase tudo. Lembra-me minha memória, porque amanhã, eu vou ter outra vez quinze anos. Os meus braços podem perfeitamente transformar-se em asas de borboleta e o riso, esse riso de que nunca mais me lembrei…Vai explodir célere nas esquinas da minha cidade. Não me lembro de correr outra vez pela minha cidade como o fiz aos quinze anos. Ora abraçando as esquinas , já sem fôlego, ora demorando o passo nos caminhos. Cada prédio estava povoado de rostos, tantos rostros. Amanhã, vou voltar a encontrar esses rostos exactamente como eles eram. O dia vai povoar-se de cabelos longos e correrias. De alguns poemas, que lerei para depois recordar. Tudo o que eu viver amanhã, ficará comigo. Bastar-me-á depois o tempo todo que me resta para poder disfrutar de um facto inolvidável e irrepetível na minha vida, como é o poder de transformar o meu presente e o meu futuro desta forma, porque amanhã, decidi eu hoje, eu vou ter outra vez 15 anos. É possível sim, voltar a ter quinze anos. Basta para isso abrir as mãos, sem medo e deixar que lhes pouse, muito ao de leve, um brevíssimo instante de eternidade.

Adelino operário - poeta

Volto ao contacto com voces publicando uma série de artigos sobre poetas de Coimbra, Começo

manel martins, 08.07.22

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«Falar de Adelino Veiga, o operário-poeta, é prestar homenagem a um conimbricense que com dignidade representou uma plêiade de homens que a história citadina regista e jamais poderá esquecer.

Adelino Veiga mais do que a sua personalidade histórica é também uma figura simbólica; a figura do operário conimbricense, virtuoso, trabalhador honrado e inteligente, com notáveis aptidões literárias e artísticas.

Adelino Veiga nasceu em plena baixa de Coimbra, a 13 de Outubro de 1848, numa modesta casa da rua das Solas, o n.º. 19 (agora com o seu nome, rua Adelino Veiga).

Oriundo de família humilde, Adelino Veiga, era filho de Maximiano Bento da Veiga, natural da freguesia de Castelo Viegas, e de Maria das Dores, natural de Santa Justa, freguesia de Coimbra...

Cedo aprendeu com o pai a arte de barbeiro, consertador de chapéus de chuva, latoeiro de amarelos, chapeleiro e construtor de redes de arame, ajudando deste modo a subsistência da família.

 

Mais tarde residindo somente com a mãe e irmã Rosália Veiga (teve outro irmão - Maximiano Veiga) instalará a sua própria oficina de reparação de chapéus na Rua Nova da Rainha, actual Rua da Sota, onde está instalada a Agência do Banco de Portugal.

Devido a dificuldades económicas, Adelino Veiga, não teve um grande percurso nos seus estudos. Não chegou a concluir a instrução primária, o que sempre lamentou, mas a vontade de saber, a capacidade de destrinçar no seu explorado meio a realidade dos seus desejos, a consciência dos direitos de quem trabalha, enfim uma profunda sensibilidade de sentir e amar, tornaram-no num autodidacta. Testemunhos há que o encontram desde a tenra idade dos 15 anos, a versejar com facilidade e espontaneidade no "Café da Alexandrina", ao cimo da Praça Velha, hoje Praça do Comércio.

O operário-poeta não descurou, porém, a sua formação intelectual nem esqueceu a verdade da sua origem e as dificuldades que enfrentou, relacionando o seu passado e a sua vivência difícil, com a vida de problemas com que os operários se defrontavam ...

Sobre Adelino Veiga, poeta humilde, escreveu o escritor Campos de Figueiredo "nunca vi o seu nome nos compêndios escolares nem qualquer referência na história da nossa literatura onde figuram versejadores cuja obra nada tem a ver com a poesia. E Adelino Veiga bem merecia tornar-se conhecido pela sua qualidade de poeta que na realidade foi. Embora poeta menor, a verdade é que este operário de Coimbra viveu como poeta e deixou uma obra onde a poesia existe. Nem grande nem pequena: apenas poesia".

Adelino Veiga afirmou a sua extraordinária personalidade em vários campos da actividade cultural, a saber: na poesia, na oratória, no jornalismo, no associativismo, no teatro e no combate por reivindicações sociais

 

Do Livro “VIDA E OBRA DE ADELINO VEIGA – POETA-OPERÁRIO CONIMBRICENSE, António Gonçalves, GAAC – Coimbra, 199

O que se Deixa para Trás

Texto “roubado”ao Júlio Machado Vaz

manel martins, 28.03.22

O que se Deixa para Trás
Michaux viajava para se tornar mais pobre, para ficar com menos, ao contrário do que imaginamos quando saímos de casa com as malas feitas. Cremos frequentemente que nos vamos enriquecer.
Se a experiência costuma encher, caminhar é libertador, é deixar um mundo para trás. Há um empobrecimento, deixa de haver propriedade além do pouco que levamos connosco.
Há alguma semelhança com a morte, já que deixamos um mundo material para trás. Dizia-se, entre os anacoretas do deserto, que não há nada na morte que a solidão não nos tenha já sussurrado ao ouvido. Poderíamos dizer o mesmo da viagem. Não só para nós, como para quem fica. Ao deixar de ter contacto com as pessoas que o rodeavam, o viajante entra no mundo dos mortos, no Hades. As pessoas deixam de o ver, da mesma maneira que não vêem os mortos. A morte é uma curva na estrada.
Para o viajante, a viagem pode significar deixar tudo para trás, toda a sua vida, os amigos, os familiares, as suas possessões, e partir apenas com aquilo que lhe é absolutamente essencial, uma espécie de alma que só por teimosia ainda tem corpo, e ouvir assim sussurrar ao ouvido, as coisas que importam realmente: os poucos objectos que levamos e a falta que fará, na nossa vida futura, quem deixamos para trás.

Afonso Cruz, in 'Jalan Jalan'

O nosso mundo hoje!!

manel martins, 21.03.22

 

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O mundo está perdido!
Tantas mortes e destruição.
Tantos estragos e poluição.
Tanta gente a morrer de fome .
Tanta gente rica que não reparte com ninguém.
Tantos problemas que os governos têm.
Tantas guerras arrasando nações.
Tantos acidentes, tantas explosões.

Tantas pessoas analfabetas, tantas sem onde morar.
Tantos adoecendo, sem remédio para se tratar.
O ser humano perdeu a razão.
afogou-se na suaprópria ambição.

 
 
 
 

 

Uma “rapidinha”!!

Cinema Português

manel martins, 16.03.22

Fico irritado, e de que maneira, quando estou a ver um filme ou uma série de origem Portuguesa e só consigo mesmo ver, porque ouvir e entender os diálogos, isso já era, não dá.. ou há música de fundo que abafa as vozes, ou as vozes ficam tão abafadas que nada se entende,

concluindo: ponham legendas

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Voto eletrónico

Quando tencionam usar a tecnologia a favor do contribuinte?

manel martins, 14.03.22

 

A propósito da embrulhada criada com os votos vindos da Europa e de fora dela: descobri este artigo do jornalista Rui da Rocha Ferreira.

“A digitalização de todos os aspetos da nossa vida é inevitável, mais vale prepararmo-nos para isto em condições do que andar sempre a remediar problemas, ano após ano”

 

Quem me conhece sabe que gosto de usar exemplos exagerados para colocar algumas ideias em perspetiva e tentar despertar um sentimento de culpa e vergonha alheia pelo caminho. Cá vai disto: já enviámos sondas para o espaço interestelar, temos protótipos funcionais de computadores quânticos, os sistemas de Inteligência Artificial já são capazes de verdadeiras revoluções ao conseguirem determinar estruturas de proteínas, mas ter voto eletrónico? Ui, isso é um desafio que não somos capazes de resolver!

 

E cá estamos nós, em 2021, na pior fase da pandemia – pelo menos para Portugal –, com umas eleições presidenciais à porta, as mais debatidas e faladas que me lembro por haver novas forças políticas no jogo do poder, e os níveis de abstenção podem ser os maiores de sempre, podendo mesmo aproximar-se dos 70%, segundo o jornal Expresso.

 

Esta é a minha opinião: o tema do voto eletrónico em eleições presidenciais, legislativas, autárquicas ou europeias não está resolvido, porque por algum motivo não há vontade em resolvê-lo. No final de quase todas as eleições, vemos os responsáveis políticos a lamentarem-se como a abstenção dos portugueses foi maior do que o desejado e como é imperativo refletir-se sobre o tema. Pois bem, nunca nenhum deles o fez verdadeiramente.

 

Se houve aspeto que a primeira vaga da pandemia nos ensinou, é que quando é preciso arregaçar as mangas, criam-se soluções para resolver os problemas das pessoas, nem que isso signifique criar um ventilador com peças feitas em impressoras 3D e com balões de festa! Foi possível fazer – e, mais importante, testar, testar, testar – uma vacina para a doença em dez meses. Obrigado ciência! Pessoalmente, não acredito que não fosse possível desenvolver um sistema de voto eletrónico seguro em igual período de tempo. Também gostava de poder agradecer à tecnologia.

 

Só alguém muito ingénuo é que podia acreditar que chegaríamos a janeiro sem uma nova vaga da pandemia. Maior ou menor, ela existiria sempre, como consequência dos contactos feitos nas épocas de Natal e Ano Novo. Por isso pergunto, porque não nos preparámos para esta eventualidade de termos milhares de infetados, isolados ou simplesmente com medo de irem votar? Porque não convocámos as melhores tecnológicas, os melhores especialistas em cibersegurança, constitucionalistas e todos os outros que fossem necessários, para criar um sistema de voto eletrónico em tempo recorde, funcional e seguro? Porque não fizemos disto uma prioridade nacional? Todos temos o direito ao voto e o Estado tem a obrigação de nos dar condições para exercermos este direito. Se não o fizer, estará a falhar redondamente naquela que é a sua missão e no seu contrato social estabelecido com os cidadãos.

 

Além disso, nem sequer teríamos de começar do zero. Nas eleições europeias de 2019, foi feito um teste piloto, em Évora, de voto eletrónico (presencial, é certo), experiência que recebeu uma nota positiva da secretaria geral do Ministério da Administração Interna. Só era preciso começar a construir a partir daqui. Na Estónia, em 2019, nas legislativas locais, dos 561.131 estónios que votaram, 247.232 fizeram-no através do sistema de votação online – ou seja, 44% usaram o voto eletrónico. Pois mande-se alguém para a Estónia para aprender como é que se faz!

 

Para mim, era preferível termos feito um esforço hercúleo para desenvolvermos um sistema de voto eletrónico funcional, mas que depois, por opção, até podíamos nem usar por a situação permitir o voto tradicional, do que estarmos com os dedos a fazer figas na expectativa de que a pandemia estivesse ‘sugadita’ e não nos chateasse.

 

Está mais do que na hora de usarmos o dinheiro dos contribuintes para aquilo que é verdadeiramente importante e que salvaguarde o seu interesse. Está na altura de deixarmos de achar normal que o Portal das Finanças vá abaixo quando é preciso meter as faturas ou que o Portal das Matrículas deixe os pais à beira de um ataque de nervos, como aconteceu no ano passado. Está na altura de pensarmos na tecnologia como uma verdadeira resposta e alternativa para determinadas ações ‘analógicas’, em vez de olharmos apenas para elas como um meio termo, como ‘só meia dúzia é que vão usar isto’ ou ‘como é óbvio, não devem submeter as faturas todas no último dia do prazo’. Porquê? O prazo não serve para isso mesmo, para me permitir fazê-lo até àquele ponto? Um golo nos descontos no futebol não é tão válido como um golo nos primeiros segundos da partida? A digitalização de todos os aspetos da nossa vida é inevitável, mais vale prepararmo-nos para isto em condições do que andar sempre a remediar problemas, ano após ano.

 

O voto eletrónico podia até nem ser para todos os portugueses, mas sê-lo apenas, por exemplo, para quem está mesmo ‘impedido’ de ir votar. Se conseguíssemos reduzir em 5, 10 ou 15% o número de pessoas que se deslocam às urnas – e haverá sempre quem o irá fazer, nem que um dia se invente o voto telepático –, já estávamos a dar uma grande ajuda em termos de mitigação de riscos de saúde pública. E mais importante, estaríamos a dar um passo de gigante na salvaguarda de um direito fundamental dos cidadãos e, no global, da democracia.

 

Tirando o descrédito nos políticos, nunca se perguntaram por que razão a abstenção é tão elevada? Nunca se perguntaram se é possível que a abstenção diminua significativamente se tornarmos muito mais conveniente o método de voto?

 

Há um ditado que diz que para aprender é preciso cair. Pois bem, que este tenha sido o tombo final que todos precisavam, especialmente os que têm responsabilidade política, para que se concretize algo que já devia ser uma realidade.

 

 

 

Mãe

Hoje teríamos estado juntos fisicamente, mesmo assim sinto a sua presença junto de mim!

manel martins, 13.03.22


Mãe:

Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti - não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto - sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim

 

Miguel Torga, in 'Diário IV' 

 

Mal nenhum

Nunca viram ninguém triste!!!??

manel martins, 11.03.22

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Nunca viram ninguém triste
Por que não me deixam em paz?
As guerras são todas tão tristes
E não têm nada demais
Me deixem bicho acuado
Por um inimigo imaginário
A correr atrás dos carros
Feito um cachorro otário
Me deixem,ataque equivocado
Por um falso alarme
Quebrando objetos inúteis
Como quem leva uma porrada
Me deixem esmurrar e amolar a faca
Cega, cega da paixão
E dar tiros a esmo ferindo sempre o mesmo
Cego coração
Por isso
Não escondam suas crianças
Nem me chamem o síndico
Não me chamem a polícia,não
Não me chamem o hospício
Eu não posso causar mal nenhum
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim
Mal nenhum
A correr atrás dos carros
Mal nenhum
A não ser a mim mesmo
Eu não posso causar mal nenhum
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim

Quando Eu For Pequeno

Aí como eu gostava de voltar ser pequeno!!

manel martins, 08.03.22

Quando Eu For Pequeno

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Quando eu for pequeno, mãe, 

quero ouvir de novo a tua voz 

na campânula de som dos meus dias 

inquietos, apressados, fustigados pelo medo. 

Subirás comigo as ruas íngremes 

com a certeza dócil de que só o empedrado 

e o cansaço da subida 

me entregarão ao sossego do sono. 

 

Quando eu for pequeno, mãe, 

os teus olhos voltarão a ver 

nem que seja o fio do destino 

desenhado por uma estrela cadente 

no cetim azul das tardes 

sobre a baía dos veleiros imaginados. 

 

Quando eu for pequeno, mãe, 

nenhum de nós falará da morte, 

a não ser para confirmarmos 

que ela só vem quando a chamamos 

e que os animais fazem um círculo 

para sabermos de antemão que vai chegar. 

 

Quando eu for pequeno, mãe, 

trarei as papoilas e os búzios 

para a tua mesa de tricotar encontros, 

e então ficaremos debaixo de um alpendre 

a ouvir uma banda a tocar 

enquanto o pai ao longe nos acena, 

lenço branco na mão com as iniciais bordadas, 

anunciando que vai voltar porque eu sou 

                                                       [pequeno 

e a orfandade até nos olhos deixa marcas. 

 

José Jorge Letria, in "O Livro Branco da Melancolia"