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Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

A ALMA NO CONTEXTO DA BÍBLIA E FORA DELE

manel martins, 05.01.21

Nesta fase da vida em que, quase mensalmente, vemos partir um colega de trabalho, um amigo, um familiar, em que o natural envelhecimento do corpo conduz, inevitavelmente, ao problema da morte, são muitos os que, para seu conforto, se agarram à ideia de uma vida “do lado de lá”.

Pessoalmente, este problema é sentido com a maior tranquilidade, como um fim de uma etapa natural inscrita na natureza e na evolução da matéria, sem deuses, nem santos.

A Bíblia ensina que a alma, entendida como espírito, é uma emanação exclusiva do Homem a quem Deus deu vida no sexto dia da Criação, o que, segundo o texto sagrado, aconteceu há cerca de seis mil anos. Para os crentes, a alma nasce com o ser humano, cresce e evolui com ele, liberta-se dele no momento da morte do respectivo corpo e permanece para além dele “ad aeternum”. Nesta concepção, a morte física de alguém tem lugar no momento em que a alma abandona o corpo e parte para uma outra forma de existência, entendida como unicamente espiritual, imortal e, portanto, eterna.

A palavra alma radica no latim “anima” e significa o que anima e dela derivam palavras do nosso dia-a-dia, como animal, animado, animação, ânimo e animismo, a teoria que considera a alma, simultaneamente, princípio de vida psíquica e física ou orgânica. Nesta óptica, abandonado pela alma, o corpo fica sem animação e, portanto, morto.

No âmbito da grande maioria das religiões cristãs e não cristãs, a alma é uma entidade imaterial, que continua a existir após a morte do corpo, destinada a fruir, para sempre, a graça celestial ou condenada ao eterno tormento. Os seguidores desta ideia poderão concluir que, uma vez libertas do corpo e dos interesses e compromissos inerentes à vida terrena, as almas se tornam as melhores críticas dos actos dos homens ou das mulheres que foram.

Na linha da tradição religiosa pagã da antiga Grécia, Platão ensinava que as almas, na sua imortalidade, caminhavam para a perfeição, ganhando sabedoria e libertando-se dos medos e de outros defeitos humanos, entre os quais, a inevitável condição de errar. E essa sabedoria era interpretada por ele como a capacidade de conviver com os deuses por todo o sempre.

Para Lucrécio, poeta romano do século I a. C., a alma morria com o corpo de que foi complemento. Ele defendia que, após a morte, dela restava o que ele designou por “simulacrum”, entidade a que o povo chama fantasma e que muitos acreditam deambular entre os vivos. Nesta sua visão revela tê-la bebido na sabedoria grega, nomeadamente, na ideia epicurista de “eidolon”, termo grego que refere o mesmo tipo de entidade.

A Igreja católica (da palavra grega, ”katholikós”, que significa Universal) ensina que há tantas almas, quantas a pessoas nascidas na Terra.

Há, portanto, as almas das pessoas que estão vivas e as de todas as que já morreram, digamos que desde Adão e Eva. Aceitando esta versão bíblica, o número de almas é imenso e não pára de crescer. Assim sendo, podemos perguntar «onde é que cabem tantas almas?»

A resposta afigura-se-me simples. O conceito de alma implica o seu carácter imaterial. Assim, as almas não têm dimensão física, ou seja, não têm massa nem volume, não têm peso e não ocupam espaço. São como o pensamento. Para elas não há gravidade nem distâncias, nem fronteiras, não há alto nem baixo, nem dia nem noite, nem quente nem frio. São ubiquistas, podendo estar, ao mesmo tempo e a qualquer momento, aqui e nos quasares mais longínquos, nos confins do Universo, a milhares de milhões de anos-luz.

Sendo a alma exclusiva do Homem e se tivermos em atenção a evolução do ser humano como espécie, desde o mais antigo primata, até ao Homo sapiens actual, passando pelos australopitecos e pelos outros hominídeos (“erectus” “habilis”, “neanderthalensis” e outros) que os estudiosos têm descoberto e descrito, a pergunta que me ocorre fazer é «a partir de que estádio evolutivo da hominização, os nossos antepassados começaram a surgir acompanhados das respectivas almas?» Foi no Neanderthal, aparecido há umas centenas de milhares de anos, ou foi só no Cro-Magnon, que se pensa ter exterminado aqueles, há uns trinta ou quarenta mil anos?

Sem sombra de dúvida, sabemos que os nossos antepassados exerceram actividade psíquica e, neste sentido, torna-se evidente que tiveram alma tal como eu a entendo. Mais ainda, muitos animais superiores revelam capacidades cerebrais amplamente investigadas em institutos de psicologia animal, pelo que podemos dizer que também têm alma, repito, no sentido que dou à palavra. Quem põe em causa a inteligência de um chimpanzé, de um cão, de um elefante, de um golfinho ou, mesmo, do Troodon formosus, o dinossáurio carnívoro, desaparecido há mais de sessenta milhões de anos?

Nesta concepção, quando morre o corpo morre a alma. O que perdura, por mais ou menos tempo, é a memória que dele, enquanto vivo, nos ficou. A alma, entendo-a, pois, pura e simplesmente, como o psiquismo decorrente da vida animal.

Por vezes, dou por mim a pensar que sou um materialista, no sentido filosófico da palavra, não no sentido vulgar e pejorativo de pessoa só interessada nos bens materiais. Um materialista na linha de Leucipo de Mileto e de Demócrito de Abdera, filósofos atomistas dos séculos V e IV, antes de Cristo, e precursores do materialismo, para os quais tudo o que existia era feito de átomos e vazio.

Até que algo me “ilumine”, como a tantos outros, sou de opinião de que tudo o que existe é matéria e que todos os fenómenos, mesmo os imateriais, que observamos são o resultado de interacções materiais. O pensamento, ou seja, a actividade intelectual, psíquica ou espiritual, como alguns preferem dizer, cria as ideias, mas temos de concordar que essa actividade é processada por circuitos eléctricos entre células do cérebro, que sabemos serem entidades materiais feitas de carbono, oxigénio, hidrogénio, azoto, enxofre e umas pitadas de fósforo e de outros elementos químicos.

Não sendo matéria, as ideias concebo-as como fruto de um estado muito avançado desta realidade física e biológica, que é o cérebro, entendido como o estado mais avançado da evolução da matéria surgida (dizem os físicos, há uns 13 800 milhões de anos) com o começo de Universo. São parte do intelecto (uns dirão do espírito) de quem as concebeu enquanto criatura viva e, portanto, radicam em algo bem material. Morto o cérebro são muitas as ideias que sobrevivem através das suas criações, por tempo menos ou mais dilatado. O teorema de Pitágoras e o Princípio de Arquimedes, que todos aprendemos na escola, são ideias e os seus autores já morreram há mais de 2500 anos. As criações materiais, que podemos tocar ou ver, uma escultura ou uma pintura, por exemplo, encerram ideias que não morrem, a não ser que algo as destrua. Mas as criações imateriais morrem se não tiverem quem as mantenha vivas e as transmita.

O pensamento filosófico ou o matemático só existem se forem registados num qualquer suporte material ou se alguém, como criatura viva, os recordar. O racionalismo de Aristóteles (Séc. a.C.) ou o de Descartes (séc. XVII d. C.) são parte importante das respectivas almas, bem vivas entre nós e assim continuarão enquanto houver quem deles se lembrar.

A música existe, mas só damos conta dela se for escrita, tocada, gravada ou cantada. Onde está a 9ª sinfonia de Beethoven? Em que sítio do Universo? Que espaço ocupa? Está em toda a parte e é eterna como a alma dos que nela acreditam. Noutra dimensão, mas igualmente importante para muitos de nós, passa-se o mesmo com a obra musical do saudoso José Afonso. 

Praticamente perdeu-se toda a música que se cantou ou tocou na Antiguidade e na Idade Média, anteriormente à introdução dos pentagramas (pautas) e respectivas notações dos sons, no século XI. Mas sabemos que se fez música porque alguns dos instrumentos usados, como a lira e a cítara, chegaram até nós.

Com a poesia passa-se o mesmo. Se não for escrita ou registada perde-se. Têm sido muitos os poetas populares, que não sabendo escrever ou não tendo tido quem lhe escrevesse os versos que criaram, morrem, levando consigo toda a poética de que foram autores. Felizmente que, por terem sido escritas, chegaram até nós obras que classificamos de imorredouras e que dizemos serem as almas dos respectivos poetas. E é por isso que se fala da imortalidade de Píndaro, Virgílio, Dante, Camões, O’Neill, Sofia, Ary…

(forte abraço ao profesor António Galopim de Carvalho, autor deste texto que roubei,,,,)

 

Gosto de ti,,,

manel martins, 03.01.21

Gosto de ti quando sorris, e quando me fitas com um olhar quase inseguro de ti mesma (mas, para quê tanta insegurança? Eu gosto de ti).

Gosto de ti porque não me tocas mas sinto-te por perto, até que te afastas (para quê tanta distância, se não é isso que me leva para longe de ti?).

Gosto de ti porque me cativas e estás cada vez mais presente em mim.

Gosto de ti, mas hoje ofereces-me espinhos em vez de rosas, e eu, espero que te apercebas que talvez alguém goste de ti em segredo, e eu seja esse alguém.

Vi-te passar do outro lado da estrada e a minha maior vontade foi correr para perto de ti… Então, atravessei-a sem pensar, depois? Fui atropelado e morri- Há amores que nos matam- E tu? Passas pela mesma estrada, e desta vez já não me vês. Não sei se choras ou sorris, e não te importes se não conseguires chorar: eu prefiro ver-te sorrir.

Gosto de ti, mas tu nunca o soubeste, e agora é tarde- talvez o amor que me matou seja o mesmo que me fará viver: porque a cada sorriso teu, eu ganho vida.

Gostei de ti, mas acabou. Ou melhor “gosto de ti, mas acabou”- Assim é certo. Fazes parte da conjugação do verbo “gostar” no passado, mas em mim pertences no presente. Irónico? Esta contradição lembra-me do teu desinteresse e das minhas eternas tentativas. E hoje conforto-me com mais uma contradição, que o tempo me fez sentir: gosto de ti, e odeio-te. Gosto de ti por o teu jeito tão próprio e inseguro de ti mesma, e gosto de ti porque às vezes me olhas… olhavas- é o hábito, desculpa- e é aqui que entra o meu ódio. Odeio-te porque me entreguei a alguém que me prometeu o mundo, e acabei cheio de vários nadas. Sei que somos o contrário, por isso: acabou, mas ainda gosto de ti.

Hoje, olho para ti como quem não te conhece- e mesmo assim ainda gosto de ti.

A vida não é um jogo: nos maus momentos não podes desistir e ter uma nova vida, e moldá-la apenas com as vitórias; enquanto no jogo trocas dinheiro por vidas, na vida trocas vidas por dinheiro. A vida não é um jogo, mas também ganhas e perdes- mas nunca para sempre. Ganhar é uma questão de dias, perder é uma questão de segundos- e tudo isto, é uma questão de perspetiva: se ganhas por amor, perdes o orgulho, e se ganhas por orgulho, perdes o amor.

Eu, perdi o orgulho por ti e perdi-me também por ti (mas não em ti, porque na verdade nunca te tive) -nem sempre fazemos as escolhas acertadas, pelo que, por vezes são apenas escolhas, ou más escolhas (se só perdermos).

Gosto de ti, e perco-me a procurar-te, até que desisto de esperar por quem não vem: morro de amores, mas não morro por amor; morro de saudades, mas não morro por saudade.

 



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