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Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

Dia Mundial do Cancro

Crónica de uma doença não anunciada

manel martins, 04.02.22

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resolvo hoje, porque é dia Mundial do Cancro, falar-vos da minha passagem pela experiência oncológica,  não tem nada de original ou de espetacular e, por isso, serve , apenas, como um exemplo acessível ou inteligível para muitas pessoas. Primeiro, gostaria de dizer que toda a vida é um espelho para outra vida, somos sempre um bom ou mau exemplo para quem nos vê. Podemos ser o estímulo que faltava, ou a última pá de terra lançada numa uma cova, pouco importa afirmar que nunca pretendemos ser exemplo para outro, ser exemplo não é algo que esteja no nosso controle, controlamos apenas o tipo de exemplo que iremos dar.

Posto isto:
Corria o ano de 2013, mais precisamente o mês de  dezembro. 

Precisava de renovar a carta de condução, para isso fui ao meu médico de família, pois era necessário um atestado que só ele podia disponibilizar.

Tudo começa assim:
Percebam, não recorri ao médico por estar doente, não, não sentia qualquer problema de saúde, mas só porque precisava de provar que tinha condições para continuar a conduzir, esta simples exigência pode ter-me salvo a vida.
Da batelada de exames que me mandou fazer, eu até fiquei assustado, na verdade só um, apenas um bastou para  alterar por completo a minha vida, e, por arrastamento,a  dos meus familiares, bastou o Raio X . Na altura achei estranho, até exagerada, a quantidade de exames pedida, alguns eu não lembrava de ter alguma vez feito.

Talvez a brincar , ou não, o médico disse “o Sr já não vem cá faz ano e meio”, ao que respondi, é  bom sinal, será porque não senti necessidade”pois, olhe, “se me apresentar o resultado do raio X, poderei passar o atestado”. Era isso que eu precisava. 

Quinta feira à tarde fiz o exame, sexta feira 3,4 da tarde após um almoço, habitual, com colegas de trabalho, o telemóvel tocou, atendi, era do laboratório,” o Sr fez um raio x, aconselhamos que o venha levantar e se dirija ao seu médico, há algo que ele precisa ver com urgência”.assim fiz.levantei o exame e fui logo ao centro de Saúde, o meu médico não estava, fui atendido por uma colega, em boa hora,. Olhou para exame e disse, “temos aqui uma mancha no pulmão esquerdo, pode não ser nada, vamos fazer um antibiótico e depois repetimos o exame, mas entretanto vou falar com um colega do IPO!.

Decorria a semana das festas natalícias e ano novo, procurei fazer a vida normal mas sempre com muita ansiedade, fiz o antibiótico, oito dias, mas já não repeti o raio x, o contacto da médica com o ipo foi determinante para todo o processo. Passei rapidamente a ser acompanhado pela especialidade de Pneumologia.

Acho que é a altura para dizer que era fumador. No momento em que recebi o tal telefonema do laboratório tinha, no bolso da camisa, um maço de tabaco, teria talvez uns quatro cigarros, nessa altura a única ideia que me veio à cabeça foi pegar no maço, amachucar e colocar no lixo, assim fiz, até hoje nunca mais peguei num cigarro, e, ainda que esteja a cinquenta metros de distância, sinto o cheiro a tabaco, é coisa que me incomoda!.
Depois de cerca de 40 dias a fazer exames,análises e consultas chegou o veredito final, bastaram estas palavras, “ lamento dizer-lhe mas o Sr tem cancro no pulmão” aí fiquei a saber que o mundo tinha teto, porque ele, o teto do mundo , me caiu em cima, o teto caiu, o chão abriu uma enorme cratera onde cai, cai até ao momento em que senti a mão da minha companheira a segurar a minha e a  trazer-me outra vez para terra firme.
  Penso que quase todos os que lerem estas palavras sabem daquilo que estou a falar. É impossível descrever o momento, os pensamentos amontoam-se, atropelam-se de tal maneira na nossa cabeça que deixamos de ser nós a comandar o raciocínio e os movimentos.Quando dei por mim, estava em casa,sentado no sitio do costume a olhar para o sítio do costume, mas sem raciocinar, algum tempo depois explodi, chorei gritei e gritei ,praguejei e  perguntei porquê e porquê.

    A partir daí a minha vida ficou virada ao contrário,de pernas para o ar!. Eu tinha um tumor no pulmão esquerdo, isso estava claro, não se sabia se estava limitado ou se haveriam ramificações, era preciso fazer mais uma Tac cerebral, e por último, o Pet. (Tomografia por Emissão de Pósitrons), Foi tudo muito rapido, três dias depois estava a fazer a Tac e no dia 18 de fevereiro fiz oPet , este fui o fazer ao IPO Porto, estive lá o dia todo e quando de lá saí senti uma calma inexplicável.

  No carro, com a minha companheira e o meu filho, já de regresso a casa, (vivo em Condeixa),  estava e estou a ser acompanhado no IPO de Coimbra, a minha mulher recebeu uma chamada, essa chamada deu-nos a melhor notícia dos últimos dois meses: o exame foi negativo, o tumor estava confinado ao pulmão esquerdo .

  A leveza do meu corpo ficou ainda maior, a calma do meu espírito aumentou de tal forma que adormeci e acordei em casa, na garagem com o meu filho a ajudar-me a sair do carro. Isto foi a uma sexta feira, tinha reunião com a equipa médica no IPO na terça-feira seguinte, até lá descansei.

   A reunião com a equipa médica do IPO de Coimbra correu bem, todos os exames apontavam no mesmo sentido, logo, podia ser marcada a cirurgia.
Todos os elementos da equipa, sete, no total, tiveram palavras de alento e conforto mas sendo sempre muito realistas, ” depois de abrir vejo  o que lá está”, foi assim que o cirurgião se pronunciou.Regressei a casa e preparei-me para voltar ao trabalho porque embora estivesse a gozar uns dias de férias, queria deixar algumas coisas tratadas, dada a minha posição profissional na empresa e não sabendo quanto tempo ia estar ausente.
Dia do internamento
  Fui para o IPO logo de manhã, análises, TACs, Tórax e outras coisas que tais durante todo o dia. Ao final da tarde oficializaram o internamento.
Se até aqui, principalmente ao início do dia, eu me sentia algo nervoso e apreensivo, esse estado foi-se desvanecendo e deu lugar a uma calma tão boa, uma calma incomparável

   Não cheguei a ir para a enfermaria, fiquei logo ali na zona de preparação contígua a recepção , a minha companheira esteve comigo o dia todo, salvo alguns momentos de ausência para ir ao escritório resolver algumas coisas, por volta das 20 h o meu filho veio a buscar, despedimo-nos com um beijo e um “ate amanha” como se fossemos dormir.

A cirurgia
Quando acordei, não foi preciso que me chamassem, eu acordei como se de um dia normal se tratasse, um dia de trabalho, um dia com as rotinas habituais. Não era propriamente um dos meus dias já que eu trabalhava de noite e por esta altura estaria a procurar adormecer. Senti-me bem, calmo como se nada se passa-se, havia alguém comigo que me foi orientando no sentido de me preparar e ir para o bloco. A calma com que me deitei foi a calma com que me levantei, a paz que me invadiu no dia anterior perdurava em toda a plenitude.
Não me lembro de mais nada até acordar nos cuidados intermédios, de onde só sai para vir para casa.
Na minha vida já tinha passado por mais duas cirurgias, uma ao estômago (ulcera gastroduodenal),em 1976 e mais recentemente a coluna cervical em 2005, ́. Em qualquer um delas eu ainda lembro dos momentos anteriores a cirurgia, lembro do frio que senti quando entrei no bloco, lembro das conversas entre as pessoas da equipa, e das últimas palavras que me foram dirigidas, ”agora o Sr. Manuel vai dormir”, lembro de quanto doloroso foi o acordar.
No caso presente não dei por nada, sem saber, sai do quarto já dormia na paz dos anjos.Quando acordei estava rodeado de gente boa, gente que me acarinhou apoiou e cuidou de mim até ao último minuto de permanência naquele lugar.
Mais tarde o meu filho, a mãe, estavam junto de mim, alguns amigos tambem.Tres dias depois fui para casa.
Tinha corrido tudo muito bem.

 O amor da família, o carinho dos amigos, tantas e tantas manifestações de apoio,quer para mim quer para  a minha família, sim:, a família precisa tanto  de apoio como nós,tudo foi determinante para enfrentar o que vinha a seguir.

    Confesso, estava convencido que as coisas ficavam por aqui,estava a recuperar muito bem da cirurgia, nem quando fui operado à coluna tive uma recuperação tao rápida e sem complicações como estava a ter agora, mas  desconhecia o que me esperava.

  A  16 de Março de 2014, tive consulta de cirurgia, o cirurgião(Dr Correia de Matos), o mesmo que disse, “só depois de abrir vejo  o que lá está”,),  elogiou a minha recuperação deu-me muito apoio, deu-me um abraço e disse “não o quero voltar a ver aqui, agora vai para ali, apontou para o hospital de dia e explicou o que ia acontecer daí para  frente;ia fazer quimioterapia.

    Confesso que fiquei desiludido, a falta de conhecimento sobre como estas coisas funcionam levou a que eu pensasse que supostamente estava tudo resolvido, umas consultas de controle e aí nós vamos para a luta. Sim, na verdade vamos para a luta mas não aquela que foi interrompida pelo percalço da doença,vamos continuar a luta contra ela, a doença.

    Nesse mesmo dia tive a consulta da dor e fui encaminhado para a oncologia,  fui  recebido pelo Dr Nuno Bonito,também fui ao gabinete de enfermagem e ficou logo marcado o início dos tratamentos.   O Dr Nuno explicou o que se ia fazer: dois ciclos de oito sessões cada, duas semanas de tratamento uma de descanso.

O primeiro tratamento

Se antes tudo me parecia normal,agora alguma coisa em mim se alterou.

A primeira impressão causada pela sala de tratamentos foi aterradora, não pelo aspecto em si,mas pelo movimento de pessoas e equipamentos, os profissionais e os doentes e ainda os acompanhantes de alguns doentes, ainda o facto de encontrar ali naquele lugar onde nenhum de nós queria estar, amigos ou apenas conhecidos dos quais nem fazia  ideia de estarem doentes, muito menos contava vê-los ali. Com o tempo percebi que afinal eu até era um felizardo e hoje tenho essa certeza, alguns daqueles que lá encontrei, hoje já não se encontram entre nós, caso do amigo Jorge Bento.

O primeiro tratamento foi longo, mas ao contrário daquilo que eu pensava,não senti grandes alterações, já os seguintes,  cada semana que passava mais debilitado me sentia.

As semanas iam passando, o cabelo começou a cair, cada vez que passava a mão na cabeça, principalmente quando tomava banho, o cabelo saia às manadas, o cansaço apoderou-se de mim. Ansiosamente esperava pela semana de descanso.

Mais ansioso ficava pela consulta de oncologia na expectativa de ouvir palavras reconfortantes, e na verdade, tive essa felicidade, fui ouvindo palavras de conforto mas sempre muito realistas:” está tudo a correr bem, o Sr está a reagir bem, parabéns, no entanto ainda é cedo para,,,,,,””.

 Longas horas  passei sentado naquele cadeirão rodeado por trens repletos de frascos de onde saiam tubos que desaguavam nas minhas veias..

Essas horas, salvo raríssimas exceções, foram passadas sempre com a companhia da minha companheira, nunca estive só, Isso tornou tudo mais fácil, isso, a simpatia e o empenho dos profissionais do ipo de Coimbra, pessoas interessadas e de um grande profissionalismo e humanismo.

nota: fruto de uma trombose, a minha visão foi muito afetada, por isso tenho dificuldades na escerita, espero que os possíveis erros não vos impeça de apreciarem aquilo que eu pretendo, seja apenas, uma parte da minha história de vida,

fiquem bem,,,





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