Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

Eleições Presidenciais

Texto do professor António Galopim de Carvalho

manel martins, 25.01.21

O QUE RETIVE DA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DE ONTEM.
Relativamente a Marcelo Rebelo de Sousa, tinha, como praticamente todos os comentadores, a certeza de que a vitória seria sua, o que se confirmou amplamente. Os 60,70%, na eleição de ontem, ultrapassaram os 50,00%, obtidos em 2016, um aumento significativo devido aos votos de uma boa parte do PS, que ultrapassou, assim, largamente os votos (11,90) dos saudosistas do antigamente (desde sempre escondidos no seio do CDS e do PSD) que, a coberto do voto secreto, se deslocaram para o candidato da extrema-direita. Como já aqui escrevi, respeito o ganhador desta eleição como político, como profissional e como cidadão. Conheço-o, de há muito, como colega na Universidade de Lisboa e posso confirmar as qualidades pessoais que lhe dão a merecida popularidade.
Como escrevi há dias, o meu campo político sempre foi e é o oposto do dele, o que não impede que lhe esteja grato por tudo o que fez de positivo, com destaque para o facto de ter dado condições de governabilidade e estabilidade social e política ao governo da chamada Geringonça, permitindo que esta expressão, inicialmente proposta, pela direita, como pejorativa, passasse a inspirar simpatia e carinho da maioria dos portugueses. Grato, ainda, por ter posto fim a um viver crispado que foi o nosso nos tempos que antecederam a sua eleição.

No texto que aqui editei no último dia do ano que findou, escrevi: “É pena que, na actual legislatura, o Bloco de Esquerda se tenha afastado (quanto a mim, um erro de palmatória que lhe vai custar caro), pondo fim a uma força capaz de se opor a uma direita que começa a “deitar a cabeça de fora”. Uma direita, volto a dizer, fortemente apoiada pelos grandes interesses do mundo das finanças de dentro e de fora das nossas fronteiras e por uma poderosa comunicação social ao seu serviço, que continua a tentar o possível e o impossível para minar os entendimentos conseguidos à esquerda. Todos os dias, esta mesma comunicação social, agarra e avoluma tudo o que possa fragilizar António Costa e o seu governo, procurando tirar proveito de uma profunda crise pandémica e consequentemente económica, que nenhum outro governo enfrentou”.
E o erro de palmatória então cometido pelo Bloco de Esquerda (que nessa data antevi e mereceu alguns reparos por parte de bloquistas em comentários que me dirigiram) ficou ontem, por demais, confirmado com a decepcionante votação em Marisa Matias (3,95%) contra os 10,12% conseguidos nas presidenciais de 2016, ou os 10,1%, nas legislativas de 2019. Tenho pena que esta candidata, de elevada competência política, tenha sido o alvo desta, para ela, grande desfeita. Marisa Matias pagou caro o facto de o seu partido se ter colocado ao lado dos partidos de direita, votando contra o orçamento de 2019.

No que se reporta ao PCP considero este partido fundamental para o equilíbrio da democracia. Por força da respectiva ideologia, representa uma defesa intransigente dos mais fracos, numa sociedade democrática como é a nossa, onde as desigualdades são gritantes. O PCP é um partido de gente honrada e patriota, que sabe viver em democracia. Viu-se, ultimamente, na aprovação do Orçamento de Estado para 2021, abstendo-se, impedindo uma crise política, num período tão difícil da vida nacional.

Estamos a assistir ao assustador surgimento de uma ideologia fascizante, antissistema, declaradamente contra a constituição do “vinte cinco de Abril sempre”, do “povo unido jamais será vencido”, que, como disse atrás, tem crescido dissimulada no seio dos partidos democráticos de direita. Face a esta preocupante realidade e para a defesa da democracia, importava que o Partido Comunista saísse politicamente reforçado desta eleição, o que não aconteceu. Se é certo que João Ferreira com os seus 4,32%, ora conseguidos, melhorou algumas décimas face aos 3,94% de Edgar Silva, em 2016, a verdade é que perdeu estrondosamente, para o seu maior inimigo, a hegemonia que tinha no Alentejo, o que é, deveras, preocupante. Não é novidade para ninguém que, para os saudosistas da direita mais reaccionária, agora a surgirem à luz da liberdade que a democracia lhes oferece, os comunistas continuam a ser o inimigo a abater.
A verdade é que acordámos, de repente, para uma situação em que um adversário, nascido e consentido dentro do sistema, se propõe destruí-lo. Recordemos o que se passou na política alemã, em 1939 e toda a tragédia mundial que se lhe seguiu. É, pois, necessário e urgente que partidos democráticos do espectro político nacional revejam as suas condutas e, com espírito construtivo, os relacionamentos que têm vindo a manter entre si.