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Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

Desabafos,,

Da vida não quero muito. Quero apenas saber que tentei tudo o que quis, tive tudo o que pude, amei tudo o que valia a pena e perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.

Minha memória

manel martins, 08.09.22

Carta-a-minha-memoria_XLVI.jpg

Minha memória,

Amanhã vou ter quinze anos outra vez, vou acordar com o sol alto e nenhuma vontade de trabalhar. Esticar o meu corpo leve e despreocupado e sair a correr. O dia vai voar e eu com ele, por dentro das gargalhadas dos amigos que deixei lá longe numa curva qualquer da vida e que por causa deste amanhã, com quinze anos outra vez, voltarei a encontrar. Vou revê-los um a ou nos seus rostos imberbes, nas suas promessas por cumprir, nos seus sonhos tão reais como o foram nesse tempo. Vou revê-los e abraça-los nesse abraço longo dos quinze anos que é para sempre e, ter a absoluta certeza de que nunca os irei perder. De que nunca mais os irei perder. Com quinze anos todos os planos são para sempre e para já. O tempo cavalga numa sinfonia arrebatada. As horas sucedem-se, é certo, mas ninguém repara nelas. Não há sinais de abrandamento nem fios de cabelo que perdem a cor. Aos quinze anos a vida agita-se em passo de corrida, ninguém se lembra de olhar para trás e daquilo que se passou. Não interessa sequer, o que passou. Apenas importa o que há por viver. E o que há por viver, aos quinze anos, é quase sempre o tempo todo da eternidade. Da memória, tem-se apenas uma leve e ténue lembrança. Os sonhos são curtos e os sonos demorados e quase sempre despovoados de fantasmas. Amanhã, depois de acordar vou ficar por aí a nadar no mar quente dos meus anseios. Descobrir que o meu corpo afinal passa facilmente por cima do horizonte. As pernas leves, tão leves e os braços abertos no tamanho de quase tudo. Lembra-me minha memória, porque amanhã, eu vou ter outra vez quinze anos. Os meus braços podem perfeitamente transformar-se em asas de borboleta e o riso, esse riso de que nunca mais me lembrei…Vai explodir célere nas esquinas da minha cidade. Não me lembro de correr outra vez pela minha cidade como o fiz aos quinze anos. Ora abraçando as esquinas , já sem fôlego, ora demorando o passo nos caminhos. Cada prédio estava povoado de rostos, tantos rostros. Amanhã, vou voltar a encontrar esses rostos exactamente como eles eram. O dia vai povoar-se de cabelos longos e correrias. De alguns poemas, que lerei para depois recordar. Tudo o que eu viver amanhã, ficará comigo. Bastar-me-á depois o tempo todo que me resta para poder disfrutar de um facto inolvidável e irrepetível na minha vida, como é o poder de transformar o meu presente e o meu futuro desta forma, porque amanhã, decidi eu hoje, eu vou ter outra vez 15 anos. É possível sim, voltar a ter quinze anos. Basta para isso abrir as mãos, sem medo e deixar que lhes pouse, muito ao de leve, um brevíssimo instante de eternidade.